Foto: Prefeitura de Nova Hartz (Divulgação)
Um ano após a morte de Théo Ricardo Ferreira Felber, 5 anos, o caso que chocou o Rio Grande do Sul segue sem desfecho judicial. Nesta quarta-feira (25), data em que o crime completa um ano, o delegado Daniel Severo, responsável pela investigação em São Gabriel, relembrou os momentos iniciais da ocorrência e destacou a brutalidade do caso, considerado o mais difícil de sua carreira.
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— Foi um desespero na verdade. Quando a gente começou a receber a notícia, foram familiares do genitor que procuraram a delegacia dizendo que acreditavam que ele tinha feito alguma coisa, porque ele já tinha dito que tinha jogado o menino de uma ponte. Eu me lembro que eu estava almoçando e a plantonista me ligou. A gente mobilizou o que tinha de gente, pessoal de sobreaviso, apoio da Brigada, para percorrer as pontes do município e tentar encontrar o Théo ainda vivo — relatou, em entrevista ao programa Bom Dia Cidade, da Rádio CDN.
Segundo o delegado, a tentativa inicial foi de resgatar a criança com vida, mas a situação mudou rapidamente com a apresentação do suspeito.
— Alguns minutos depois, eu recebo a notícia que o genitor tinha se entregue para uma guarnição na rua. Ele levou até o local correto onde tinha atirado o Théo. Então foi uma mobilização muito rápida, primeiro com essa esperança de encontrar ele vivo, e depois já com a confirmação do que tinha acontecido — afirmou.
Dinâmica do crime e frieza do autor
O crime ocorreu em 25 de março de 2025, quando o pai, Tiago Ricardo Felber, 41 anos, arremessou o filho de uma ponte sobre o Rio Vacacaí. Conforme a investigação, o menino não morreu por afogamento.
— Ele atirou o Théo antes do meio-dia e depois foi almoçar e descansar, segundo as palavras dele. Era uma época de seca do Rio Vacacaí, então ele não caiu na água. Ele se chocou contra uma parte de concreto da ponte, e a morte foi em decorrência dessas lesões — explicou o delegado.
De acordo com o inquérito, na noite anterior o homem já havia tentado matar o filho por esganadura, desistindo após a criança resistir. No dia seguinte, aproveitou-se da confiança do menino durante um passeio para cometer o crime. Após isso, se apresentou à polícia e confessou.
A postura do investigado chamou atenção dos policiais desde o primeiro contato.
— Ele não parecia arrependido. Ele até teve momentos de emoção, mas parecia determinado, como se fosse um preço que alguém tinha que pagar.No caso, o filho, para atingir a ex-mulher. Não parecia orgulhoso, mas aliviado de ter feito uma tarefa difícil, é essa a leitura que eu faço do comportamento dele naquele dia — avaliou Severo.

Investigação e andamento do processo
O inquérito policial foi concluído poucas semanas após a prisão do suspeito, com o indiciamento por homicídio qualificado.
— A gente encerra o inquérito trazendo indícios de materialidade e autoria. Nesse caso, ele foi indiciado por homicídio qualificado, com motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima, além do fato de ser uma criança. São várias qualificadoras que agravam a situação — explicou.
O Ministério Público aceitou a denúncia no fim de abril de 2025, tornando o pai réu. Ele permanece preso, tendo passado por diferentes unidades prisionais.
— Esses presos são problemáticos, porque nem sempre são aceitos nas galerias. A gente sabe como funciona o sistema prisional, então não é incomum que ele fique sendo transferido entre casas prisionais — disse.
Em setembro do ano passado, foi realizada a audiência de instrução, com oitiva de testemunhas. O réu optou por permanecer em silêncio. Desde então, o processo tramita na Justiça de São Gabriel e aguarda sentença.
Impacto e reflexão sobre violência
Com cerca de cinco anos de carreira, Severo afirma que nunca havia lidado com um caso de tamanha gravidade.
— Sem dúvida, foi o mais terrível em todos os sentidos: no modo de execução, na crueldade, no contexto e também pela repercussão. Na hora, a gente se anestesia para agir de forma racional, fazer tudo corretamente. Mas depois, quando relembra, é que a gente se dá conta da dimensão da crueldade — afirmou.
O delegado também destacou a preocupação com a recorrência de crimes de violência doméstica e contra crianças.
— O que mais me preocupa é o aspecto preventivo. A gente consegue, muitas vezes, esclarecer a autoria, trazer provas, mas o desafio é evitar que isso aconteça. Violência doméstica, violência contra a mulher e contra a criança ainda são índices resilientes, não têm baixado como outros crimes — disse.

Relembre o caso
O crime ocorreu em 25 de março de 2025, em São Gabriel, quando Théo Ricardo Ferreira Felber, de 5 anos, foi morto pelo próprio pai, Tiago Ricardo Felber, 41 anos, ao ser arremessado de uma ponte sobre o Rio Vacacaí.
Na noite anterior, conforme a investigação da Polícia Civil, o homem já havia tentado matar o filho por esganadura, mas desistiu após a criança resistir. No dia seguinte, aproveitou-se de um passeio para cometer o assassinato.
Após o crime, ele se apresentou às autoridades e confessou que teria agido por vingança contra a ex-companheira, Abigail Luisa Ferreira Felber, 31 anos. A motivação levou a polícia a enquadrar o caso também como feminicídio indireto. Em contato com o Diário, ela relembrou o caso.
O laudo do Instituto-Geral de Perícias apontou que a causa da morte foi traumatismo crânio-encefálico, provocado pela queda, além de confirmar sinais da tentativa anterior de esganadura.
O suspeito foi preso preventivamente em abril de 2025 e permanece detido. Ele foi indiciado por tentativa de homicídio, homicídio qualificado e ameaça, com agravantes como motivo torpe, meio cruel, dissimulação e o fato de a vítima ser menor de 14 anos.
O processo tramita na Justiça de São Gabriel. Em setembro de 2025, foi realizada a audiência de instrução, com oitiva de testemunhas. O réu optou por permanecer em silêncio, e a defesa não apresentou testemunhas. Atualmente, o caso está na fase final da primeira instância e aguarda sentença.
Confira a entrevista do delegado